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Romance ingénuo de duas linhas paralelas

Há muitos anos (acho que foi no 7º ano - pré-história como podem imaginar!!) tive o privilégio de ter tido uma aula (o sr. deu-nos apenas a aula de apresentação porque depois integrou um projecto televisivo) com o José Fanha. Era uma aula de Educação Visual, na sala D2, no nosso riquinho Liceu Velho. Recordo-me que já o conhecia de quando era miúda (eu amava o zarabadim) mas fiquei fascinada com um poema que ele nos declamou e que eu nunca mais me esqueci. No outro dia cruzei-me com ele e voltei a lembrar-me do poema.

Aqui vos deixo:




Romance ingénuo de duas linhas paralelas 
( poema de José Fanha )


Duas linhas paralelas
muito paralelamente
iam passando entre estrelas
fazendo o que estava escrito:
caminhando eternamente
de infinito a infinito.
Seguiam-se passo a passo
exactas e sempre a par
pois só num ponto do espaço
que ninguém sabe onde é
se podiam encontrar
falar e tomar café.
Mas farta de andar sozinha
uma delas certo dia
voltou-se para a outra lina
sorriu-lhe e disse-lhe assim:
“Deixa lá a geometria
e anda aqui para o pé de mim…”
Diz-lhe a outra: “Nem pensar!
Mas que falta de respeito!
Se quisermos lá chegar
temos de ir devagarinho
andando sempre a direito
cada qual no seu caminho!”
Não se dando por achada
fica na sua a primeira
e sorrindo amalandrada
pela calada, sem um grito
deita a mãozinha matreira
puxa para si o infinito.
E com ele ali à frente
as duas a murmurar
olharam-se docemente
e sem fazerem perguntas
puseram-se a namorar
seguiram as duas juntas.
Assim nestas poucas linhas
fica uma história banal
com linhas e entrelinhas
e uma moral convergente:
o infinito afinal
fica aqui ao pé da gente! 

2 comments:

Andreia disse...

Lembro-me como se fosse hoje.
Está bem presente na minha memória.

Amei aquele momento... e fiquei com tanta pena por ter sido durante pouco tempo.

É lindo,

Soph disse...

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