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A minha aventura africana...



A minha aventura africana começou no avião quando tivemos o prazer de ouvir durante quase todo o caminho um fervoroso militante do MPLA e grande activista anti-Portugal... muito positivo!
Depois de chegarmos à nossa casa....Reclusas... Foi quase como estivemos! É verdade meus amigos… Não podíamos sair à rua… tinhamos segurança à porta! Os quartos tinham uma janela mínima, que ficava quase junto ao tecto, os muros eram altos e tinham arame farpado… o único escape que tinhamos era um terraço que ficava ao pé da nossa sala de convívio/refeições, onde todos os dias vínhamos espreitar o mundo real de Luanda…. Muita gente na rua, muitos vendedores, muito trânsito… a condução é caótica! Não existem prioridades, avança quem chega primeiro, os peões atravessam a estrada onde querem, como querem e quando querem sem se preocuparem com os carros, eles que parem!

O primeiro contacto que tivemos com uma realidade completamente diferente da europeia foi no Aeroporto. É mesmo verdade que África tem um outro cheiro… quando saímos do avião sentimos logo um bafo de ar quente e um cheiro terra (o tal que tanto ouvimos falar!). Ao chegarmos, só há uma sala de recolha de bagagens! E é uma confusão brutal… Depois temos que passar na alfândega, onde um senhor (que acho que é polícia) se por acaso embirrar connosco, nos pede para abrirmos a mala.
Em seguida há que sair para o parque de estacionamento: primeira impressão – péssima! Vem logo uma data de gente perguntar se não queremos ajuda com as malas, e depois não descolam do vido a pedir dinheiro… é logo um início muito estranho!

1º Domingo – Vieram-nos buscar de surpresa às 10 da manhã e saímos sem máquina fotográfica (como eu queria ter registado aquele dia… nunca mais vou ver outra coisa assim!) rumo à Barra do Kuanza (que é o maior rio de Angola, tem cerca de 1200 km) onde nos esperava um barco onde logo à entrada nos perguntaram se queríamos champanhe (aqui é só Möet & Chandon), quando entramos melhor vemos que tem Jacuzzi… é um choque muito grande, ainda pelo caminho tínhamos visto pessoas que vivem na rua, descalças…Lá começamos a descer o rio por um afluente (que era gigante!) o Lwei, parecia que estávamos na Amazónia… Vegetação linda, pássaros com cores lindas! Depois deste passeio de sonho, fomos de Hummer (atenção… não andamos em qualquer coisinha! Ehehe) até ao cimo de um “monte” (que aqui não são muito altos) onde almoçámos um almoço de reis. 50 mil pratos, foi aqui que provei pela primeira vez Funje com feijão e óleo de palma, muito bom! É uma autêntica papa, mas muito bom!O melhor deste almoço foi mesmo a vista… no sítio onde almoçámos estava em construção uma casa redonda! Isto é, tinha uma vista panorâmica de 360º!! Inimaginável… no meio da savana… parecia mesmo que estava no meio do Rei Leão! Só faltavam os animais… o quarto vai ser todo em vidro, com vista para o céu! Um espetáculo…

1ª Segunda-feira – Primeiro dia de aulas! Três turmas:
• Turma 1 – turma dos polícias com patentes mais altas (dos bosses)
• Turma 2 – a turma dos mais interessados
• Turma 3 – aquela que ninguém gosta! (Tem sempre que haver uma!)
Os dias foram enormes.. mas as aulas correram depressa… o que é bom sinal!! Tivemos uma paragem na 4ªf (25 Maio – dia de África) onde fomos o dia todinho para a praia!! À noite fomos a uma festa (aquilo que os angolanos mais gostam de fazer! Hehehe).
No segundo fim de semana fomos até ao Centro Nzoji (que em português quer dizer Sonho), esta é uma instituição que alberga órfãos de polícias mortos durante a guerra. Vivem lá cerca de 400 meninos entre os 8 e os 17 anos. Aquilo é enorme e ainda está em construção. Assim, durante uma semana também dei aulas a 6 meninos de lá! Foi uma experiência gira.

Foi durante a segunda semana (4ªF novamente feriado – dia da criança) que fomos a Cabo Ledo (o paraíso na terra) apesar de termos demorado 4 horas a lá chegar valeu a pena… Uma praia
fantástica, mar calminho e quente, um sol radioso, e uma lagosta acabadinha de pescar grelhada!
O resto das aulas correu muito bem! Os alunos ficarams satisfeitos... queriam que continuássemos por mais 3 meses!! (creeedddooo)
Eu gostei muito desta experiência... apesar dos grandes contrastes que se vêem por lá. Aprendi a dar mais valor ao que tenho e ao meu país! Não digam mal de Portugal... nós afinal vivemos muito bem por cá!! Cá não há lixo na rua... crianças à procura de alguma coisa para comer, pessoas a pedir, estradas que são só um buraco, homens com armas à porta das casas, pessoas a vender de tudo na rua, aqui não está tudo partido! Em contrapartida a hospitalidade das pessoas é fantástica! Acolhem-nos como se fossemos mesmo família! Mas já tinha muitas saudades de Portugal...

4 comments:

Soph disse...

Foi realmente fantástica esta tua aventura!
Fantástica na perpectiva da função que foste desempenhar...
Não sei se sou eu... não sei se é de mim... não sei se é das coisas que tenho aprendido... das pessoas que ultimamente me têm falado de África... mas isto do "branco" ir até lá... é complicado... muito complicado!
Branco é sempre sinal de qualquer coisa gratuita... oferecida... Branco é presente... vida fácil... basta pedir.... eles dão...
Isto dava para horas e horas de conversa... fica só aqui um bocadinho da minha inquietação em relação a estas "estratégias de desenvolvimento"...

Bolas... estava a ver que nunca mais chegavas! ehehe

É muito bom ter-te perto... mesmo que te veja tantas vezes quantas as que estavas em Luanda... saber que estás perto... é muuuuuuuuuuuuuuuuuuuuito bom!

NatSoph 506LRS

Anónimo disse...

Contrastes... se no Brasil há contrastes/choques parecidos com o que você contou, fico imaginando como deve ser na África, então. Será que é porque também fomos colônia de vocês?(rsrsrs)Um grande abraço!

Anónimo disse...

Seja bem regressada depois de mais uma aventura que certamente não vais esquecer!! Ficas a conhecer mais uma realidade +/-, isso do hummer, barco, etc, é só para gente importante, como tu!!!eheheh
Ainda bem que correu tudo bem e que voltaste sem comichões!!

Anónimo disse...

Tem a ver, sim, com o facto de termos todos sido colónias de Portugal, mas tem também a ver que os tugas simplesmente entregaram de bandeja as antigas colónias a grupos comunistas. Afinal, foram os comunistas que tomaram o poder em Portugal, quando da revolução de 1974. Não houve preparação, nada. Foram a Argélia (norte de África) negociar a entrega das colónias a quem eles quiseram - sem eleições (que foram prometidas, mas não realizadas porque não tencionavam realizá-las), nada.
Tão pouco tiveram a honestidade de conhecê-las "in loco".
O que fizeram é crime de lesa-pátrias! Já parou para pensar por quantos milhões de mortes são responsáveis? Em tempo de guerra, por fome, por doença? Até hoje?

Em Angola, ouvi um dirigente, naquele 1975 quente, afirmar que "era preciso destruir para reconstruir"... Levaram à letra, só que fica difícil de reconstruir depois de tanta "estragação", quando há uma minoria-minoria (deixaram de ser comunistas e são agora capitalistas/oportunistas) que tem os bolsos cheios de verdinhas (casas de luxo, carros topo de gama, como os Hammer, etc.) e a grande maioria passa fome e luta do jeito que pode para sobreviver. Sabe qual é a expectativa de vida hoje? 39 anos para os homens, 41 para as mulheres... A situação não era justa antes e continua muito injusta. Passaram-se mais de 30 anos! Inclusive, muitas empresas estrangeiras vieram para Angola para se encher de $$$ como é o caso da brasileira Oderbrecht... Estão há quase tantos anos quantos Angola é independente e o problema do saneamento básico continua com água faltando dias seguidos; a barragem em que estão trabalhando é uma 2ª edição das "obras de Stª Engrácia". E muito mais, mas estou ocupando muito espaço. Peço desculpa.

As pessoas vêm a Angola, com bons contratos, transportes, segurança à porta, muitas mordomias, são-lhes proporcionados passeios lindíssimos, e claro que vêm o choque entre a extrema riqueza e a extrema pobreza.
Vão-se embora e guardam umas quantas fotos de recordação que considerarão pitorescas.

Mas o coração deles, que não é angolano, não chora!

A história da "descolonização exemplar" é muito longa...